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Ressurgimento da coqueluche: diminuição da imunidade e adaptação a patógenos - dois lados da mesma moeda


Resumo


  • A coqueluche (tosse convulsa) ressurgiu nos países ocidentais, sendo uma das doenças preveníveis por vacinação mais prevalentes, e o declínio da imunidade é frequentemente considerado a causa principal.

  • Mudanças significativas nas populações de Bordetella pertussis, como divergência antigênica com cepas vacinais e aumento da produção da toxina pertussis, sugerem um papel da adaptação do patógeno no ressurgimento.

  • Essas adaptações podem ter acelerado o declínio da imunidade e diminuído a eficácia das vacinas contra a coqueluche.


Introdução


  • A coqueluche persiste e ressurgiu, representando uma ameaça para bebês não (completamente) vacinados, para quem a doença é grave e potencialmente fatal.

  • O aumento da coqueluche é predominantemente observado em faixas etárias onde a imunidade diminuiu, com a duração da proteção após a vacinação acellular (ACV) sendo menor do que se pensava.

  • Há evidências de que algumas vacinas de célula inteira (WCVs) conferem imunidade mais duradoura do que as ACVs, levantando a possibilidade de que a mudança para ACVs tenha agravado o problema da coqueluche.


Introdução (Continuação)


  • O declínio da imunidade pode ser afetado por fatores como a qualidade da vacina e a adaptação do patógeno, sendo que a hipótese de falta de reforços naturais é difícil de conciliar com as altas taxas de infecção observadas recentemente.

  • A adaptação do patógeno, incluindo variação antigênica e alterações na regulação genética, pode diminuir a eficácia das vacinas e acelerar o declínio da imunidade.

  • O foco desta revisão é a variação nas proteínas associadas à virulência incluídas nas vacinas ACVs: Fimbriae (Fim2, Fim3), Pertactina (Prn), Toxina Pertussis (Ptx) e o promotor da Ptx (ptxP).


Variação nas Proteínas Associadas à Virulência de B. pertussis


  • A variação alélica nos genes fim2 e fim3 é limitada, com duas variantes de Fim2 e três de Fim3 circulando nas populações de B. pertussis.

  • Fímbrias estão incluídas em algumas vacinas ACVs, e a maioria das cepas vacinais analisadas continham fim2-1 e fim3-1, exceto uma cepa holandesa que contém fim2-2 e fim3-1.

  • A Ptx é o único antígeno comprovadamente protetor em humanos, sendo incorporada em todas as ACVs, com PtxA1, PtxA2 e PtxA4 encontradas em cepas vacinais.


Variação nas Proteínas Associadas à Virulência de B. pertussis (Continuação)


  • O promotor ptxP apresenta três alelos predominantes (ptxP1, ptxP2, ptxP3), sendo que as cepas ptxP3 produzem 1,6 vezes mais Ptx do que as cepas ptxP1.

  • Treze variantes proteicas de Prn foram identificadas, mas a variação se concentra principalmente em duas regiões de repetições de aminoácidos, sugerindo um mecanismo de escape da imunidade do hospedeiro.

  • Cepas usadas para produção de vacinas contêm os alelos prn1, prn7 ou prn10.


Mudanças Temporais na População de B. pertussis Holandesa


  • A introdução da vacinação na Holanda (WCV em 1953) foi associada ao surgimento sucessivo de novos alelos não vacinais para ptxA, prn, ptxP e fim3.

  • A Holanda fornece um modelo de estudo único devido ao seu alto e consistente nível de cobertura vacinal e caracterização das vacinas e cepas utilizadas.

  • A análise filogenética de cepas holandesas revelou uma divergência gradual entre as cepas vacinais WCV e a população de B. pertussis em relação aos quatro genes estudados.


Mudanças Temporais na População de B. pertussis Holandesa (Continuação)


  • As mutações nos genes fim3, prn, ptxA e ptxP foram encontradas no "tronco" da árvore filogenética e foram fixadas até serem substituídas por novas mutações, indicando que novos genótipos emergiram de novo.

  • As mutações nos genes de virulência foram associadas a "varreduras clonais" (clonal sweeps), sugerindo um aumento na aptidão da cepa, com dois tipos de mudanças observadas: divergência antigênica e aumento da produção de Ptx.

  • A emergência de cepas ptxP3 coincidiu com o aumento das notificações na Holanda, Finlândia e Austrália, embora nos EUA o aumento das notificações tenha seguido mais de perto as frequências de fim3-2.


Cepas P3: Uma Linhagem de Emergência Global


  • Estudos filogenéticos demonstraram que as cepas ptxP3 formaram um ramo monofilético que divergiu recentemente e se espalhou globalmente, substituindo as cepas ptxP1 em muitos países.

  • O aumento da produção de Ptx pelas cepas ptxP3 confere uma vantagem adaptativa, pois a Ptx desempenha um papel central na supressão da imunidade inata e adquirida, o que pode atrasar uma respos

  • A alta produção de Ptx pode levar a níveis elevados de leucocitose, associados a uma maior taxa de mortalidade em bebês devido à hipertensão pulmonar, embora a maior virulência das cepas ptxP3 necessite de mais pesquisas.


O Efeito das ACVs nas Populações de B. pertussis


  • As mudanças nas frequências alélicas observadas nas populações de B. pertussis antecedem a introdução das vacinas ACVs e foram impulsionadas principalmente pelas WCVs.

  • A introdução das ACVs pode gerar pressões seletivas diferentes das WCVs, já que as ACVs induzem uma resposta imune mais focada em poucos antígenos, com títulos mais altos.

  • Após a introdução das ACVs em vários países, foram encontradas cepas que não expressam FHA, Ptx ou Prn, três componentes das vacinas atuais, e a perda da produção de Prn já atingiu frequências de 14% a 27% em França e Japão.


Variação da Cepa Afeta a Colonização de Camundongos Naïve e Imunes


  • Estudos em modelos animais confirmaram o efeito da variação da cepa na eficácia da vacina, sendo que a incompatibilidade nos alelos ptxA e/ou prn com a cepa vacinal reduziu a eficácia em camundongos.

  • Em camundongos naïve, apenas a variação em Prn e ptxP afetou significativamente a colonização, com cepas Prn1 colonizando melhor do que Prn2 e Prn3, e em camundongos imunes, as cepas Prn2 colonizaram melhor.

  • A variação na Prn é encontrada principalmente na região R1, que está próxima ao motivo RGD envolvido na adesão, podendo afetar tanto o reconhecimento imunológico quanto a ligação às células hospedeiras.


Discussão


  • Mutações pontuais em genes únicos de B. pertussis podem ter um efeito significativo na aptidão da cepa, resultando em varreduras clonais em um período de 6 a 20 anos, sugerindo que o patógeno está bem adaptado.

  • As discrepâncias na associação entre as mudanças na população de B. pertussis e o aumento das notificações em diferentes países podem ser devidas a diferenças nos métodos de vigilância ou na imunidade da população.

  • A melhoria da vacinação pode ser alcançada com a atualização das vacinas para incluir variantes proteicas predominantes e pela substituição da Ptx quimicamente desintoxicada pela Ptx geneticamente desintoxicada, que é mais imunogênica e induz mais eficientemente anticorpos neutralizantes.


Discussão (Continuação)


  • O uso de doses de reforço com baixo teor de Ptx deve ser reavaliado, considerando que a redução de efeitos colaterais precisa ser equilibrada contra o risco de aumento das taxas de infecção se a duração da proteção for afetada.

  • Estratégias como a imunização materna ou o "cocooning" podem reduzir significativamente a morbidade e mortalidade em bebês a curto prazo, sendo a imunização materna recomendada nos EUA e Reino Unido.

  • As adaptações do patógeno diminuem a duração da proteção, e a solução para o problema da coqueluche requer uma abordagem abrangente focada nas características das vacinas, nas populações de B. pertussis e na interação entre os dois.


As principais formas de adaptação da Bordetella pertussis que dificultam a eficácia das vacinas são a divergência antigênica com as cepas vacinais e o aumento da produção da toxina pertussis (Ptx).


1. Divergência Antigênica:


  • Mudanças significativas nas populações de B. pertussis foram observadas após a introdução das vacinas, sugerindo um papel da adaptação do patógeno no ressurgimento da coqueluche.

  • Essa divergência antigênica com as cepas vacinais afeta tanto a memória imunológica quanto a eficácia dos anticorpos.

  • A análise das populações de B. pertussis na Holanda, por exemplo, mostrou o aparecimento sucessivo de alelos novos, não-tipo-vacina, para genes como ptxA, prn, ptxP e fim3 após a introdução da vacinação em 1953.


2. Aumento da Produção da Toxina Pertussis (Ptx):


  • Foi observado um aumento na produção da toxina pertussis em cepas de B. pertussis, associado ao ressurgimento da coqueluche.

  • Níveis mais altos de Ptx podem aumentar a supressão do sistema imunológico inato e adaptativo. Isso permite que as cepas de B. pertussis superem a memória de anticorpos em hospedeiros cuja imunidade diminuiu.


Essas adaptações de B. pertussis são propostas como fatores que diminuíram o período de eficácia das vacinas contra a coqueluche e, consequentemente, aceleraram o declínio da imunidade.


O declínio da imunidade ao longo do tempo é considerado uma causa importante para o ressurgimento da coqueluche, manifestando-se principalmente em grupos etários mais velhos.


As principais formas como o declínio da imunidade contribui para o ressurgimento da coqueluche são:


  1. Aumento da Circulação em Grupos Etários Mais Velhos: O aumento da coqueluche é observado principalmente em faixas etárias em que a imunidade diminuiu (adolescentes e adultos).

  2. Taxa de Circulação Elevada: A alta taxa de circulação de Bordetella pertussis resultante representa uma ameaça para bebês que não foram (completamente) vacinados e para os quais a coqueluche é uma doença grave e potencialmente fatal.


  1. Duração da Proteção Mais Curta Após a Vacinação:


  • A duração da imunidade, seja por infecção natural ou vacinação, varia amplamente. A proteção conferida pelas vacinas acelulares (ACVs) demonstrou ser menos duradoura do que se pensava.

  • Estudos recentes indicam que a proteção conferida pelas ACVs é menos duradoura do que a conferida por algumas vacinas de célula inteira (WCVs), levantando a possibilidade de que a mudança de WCVs para ACVs possa ter agravado o problema da coqueluche. Por exemplo, um estudo descobriu que após a quinta dose de uma ACV, a probabilidade de adquirir coqueluche aumentou em média 42% por ano.


  1. Vulnerabilidade Acelerada: As adaptações do patógeno, como a divergência antigênica e o aumento dos níveis de Ptx (que suprime o sistema imunológico), são previstas para afetar a duração da proteção, acelerando, assim, o declínio da imunidade e permitindo que as cepas de B. pertussis superem a recordação de anticorpos em hospedeiros com imunidade enfraquecida.


Embora o declínio da imunidade seja amplamente aceito como uma causa fundamental, o artigo defende uma abordagem mais integrada, reconhecendo que as adaptações do patógeno também desempenham um papel crucial na persistência e ressurgimento da doença.


Citação: Mooi FR, Van Der Maas NA, De Melker HE. Pertussis resurgence: waning immunity and pathogen adaptation - two sides of the same coin. Epidemiol Infect. 2014 Apr;142(4):685-94. doi: 10.1017/S0950268813000071. Epub 2013 Feb 13. PMID: 23406868; PMCID: PMC9151166.




 
 
 

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